Artigos - O que Turra tem a dizer

Agricultura familiar: caminhos para o agro sustentável 27.02.2014

As mudanças climáticas e o aumento da população impõem desafios aos atuais modelos de agricultura. E, nesse contexto, a agricultura familiar ganha força, sobretudo como um importante meio para reduzir a pobreza e garantir a segurança alimentar.

As políticas brasileiras no setor são tidas como exemplo pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Todavia, para os trabalhadores do campo ainda há muito a ser feito.

A definição de agricultura familiar varia muito de país para país. No Brasil, por exemplo, agricultores familiares são produtores que possuem uma única propriedade, cujo tamanho difere por região. Além disso, a principal mão de obra empregada é a do produtor rural e de seus próprios familiares. Sua renda vem exclusivamente desse estabelecimento.

Cabe ressaltar que 84,4% dos estabelecimentos rurais brasileiros pertencem à agricultura familiar, que emprega quase 75% da mão de obra do setor agropecuário. Em contrapartida, somente 24,3% das áreas ocupadas por estabelecimentos agrícolas são administradas por pequenos proprietários.

A produção gerada pela agricultura familiar é voltada principalmente ao mercado interno. Ela é responsável pela produção de 70% dos alimentos consumidos no país – como 70% do feijão, 87% da mandioca, 58% do leite e 46% do milho.

A ONU estima que existam cerca de 500 milhões de pequenas propriedades rurais mundo afora. Na América Latina e no Caribe elas representam cerca de 80% desse universo e produzem mais de 60% dos alimentos consumidos nessas regiões, além de empregar mais de 70% da mão de obra do setor. Esses números, com certeza, dão mostras da sua grande importância econômica e social.

Nos últimos anos, a agricultura familiar tornou-se setor prioritário para o governo federal. Por tais razões, a FAO, em reconhecimento às políticas públicas brasileiras de incentivo ao pequeno produtor, passou a considerá-las um exemplo a ser seguido.

É imperioso sublinhar que o incentivo à agricultura familiar contribui para reduzir a pobreza extrema, dinamizar os mercados locais, incentivar a permanência de agricultores na sua comunidade. Em nível nacional, contribui, decisivamente, para aumentar a segurança alimentar, reduzindo a vulnerabilidade do país ao mercado global e ao choque de preços.

Fato indiscutível é que a agricultura familiar vem ganhando relevância não só no Brasil, como, de resto, em todo o planeta. Em oportuna iniciativa e em reconhecimento à importância estratégica do trabalho desenvolvido pelo pequeno produtor rural, a FAO escolheu 2014 como o “Ano Internacional da Agricultura Familiar”.

O modelo da agricultura familiar não é importante apenas para a segurança alimentar, mas, igualmente, para garantir a produção de alimentos com as mudanças climáticas. Em muitas das propriedades costumam ser plantados produtos dos mais variados, sendo utilizadas sementes e espécies tradicionais que existem há centenas de anos e que são mais resistentes a pragas e mudanças.

A agricultura familiar possui, além de todas as vantagens já elencadas, um grande potencial ecológico, possibilitando, por consequência, um formato ou desenho agrícola que pode conciliar melhor a agricultura com áreas de preservação/áreas naturais. Não restam dúvidas que são inúmeras as possibilidades que se abrem com a agricultura familiar no que tange à preservação do meio ambiente. Seja pela segurança alimentar, manutenção do homem no campo, geração de renda ou preservação ambiental, ela é um caminho seguro para o agro brasileiro. É a valorização do produtor rural, que alimenta nossas famílias e fortalece a economia de nosso país. É, em síntese, um modelo a ser seguido e priorizado no presente e no futuro.


Francisco Turra - ex-ministro da Agricultura e presidente executivo da União Brasileira de Avicultura (UBABEF)

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